quarta-feira, 18 de maio de 2016

A crise no Brasil exigem coragem



Crise exige coragem.

O BRASIL comporta-se como um paciente que está doente, às vezes muito doente, sabe que precisa medicar-se, mas não quer tomar o remédio preceituado pelo médico. Como resultado permanece doente muito mais tempo. Sei bem o que é isso: só tomo qualquer remédio quando não tem mais jeito
Um dos motores da crise política que culminou com o afastamento da presidente Dilma Rousseff, inicialmente, por até 180 dias, é a grave situação econômica que assola o país, fruto das políticas equivocadas implantadas e desenvolvidas durante os governos petistas.
Apenas para citar três exemplos devastadores, temos o Produto Interno Bruto – PIB, ameaçando encolher mais de 4%, acumulando um déficit de quase dez por cento, nos três últimos anos; temos o desemprego passando dos onze por cento ou seja, mais de doze milhões de país de famílias sem ter como pagar as contas; temos desequilíbrio nas contas públicas que deverá passar esse ano, de 100 bilhões de reais.
Quase todos os brasileiros sabem da gravidade da crise/doença. A larga maioria já sabe os remédios exigidos na presente situação para, devolver confiança aos mercados, fazer com que entre capital externo, recuperar a atividade econômica, quase toda paralisada ou funcionando bem abaixo de sua capacidade e com isso, devolver os empregos tomados pela crise e o país voltar a crescer.
Pois é, todos ou quase todos, sabem disso. Sabem, também, da urgência de tais medidas. Apesar disso, ninguém, nenhum patriota quer ceder nada. O país se dissolvendo e a discussão mais acalorada dos últimos dias é que o ministério de Temer não tem mulher, não tem negro, não tem gay (sei lá se não tem), que é velho, que é conservador, que possui alguns investigados (bem menos que no governo anterior).
Embora estas questões não sejam, de todo, despropositadas, a pauta do país é outra. Tem que ser outra. O cidadão que viu seu emprego sumir quer saber é quando poderá pagar as contas; o empresário que viu sua fábrica fechar quer saber quando poderá reabri-la; o pai de família quer saber de uma saúde que lhe socorra, de uma educação de qualidade para os filhos, de um transporte público que funcione.
Ora, não é segredo para ninguém que o país possui uma máquina administrativa mastodôntica. O próprio Estado é mastodôntico. Poderia funcionar perfeitamente com menos da metade do que tem hoje, eliminar ao menos oitenta por cento dos cargos comissionados e o que sobrar ocupar com servidores de carreira.
Mas, ninguém, sequer, ousa falar nisso. O novo governo cortou dez de um total de trinta e três ministérios e já começou a enfrentar resistência dentro e fora do governo. Um verdadeiro escândalo por ter juntado as atribuições do Ministério da Cultura à Educação. Como, aliás, era no passado. Chama-se MEC porque, outrora, era Ministério da Educação e Cultura. Uma das pessoas mais lúcidas que conheci, a médica comunista Maria Aragão era uma das críticas da cisão. Segundo ela, não havia como dissociar educação de cultura, que ambas as coisas estavam umbilicalmente ligadas. Não sei o que acharia disso hoje.
A simples junção das pastas é causa da grita. Bradam a todo momento: – Meu Deus, acabaram com o Ministério da Cultura (o que não é verdade), o que será de nós?
A impressão que tenho é que as pessoas ainda não se deram conta da “emergência nacional” que estamos vivendo. Ou agem de má-fé.
A situação atual exige muito mais que isso. Neste momento de emergência era para o governo priorizar apenas os ministérios essenciais: Justiça, Educação, Saúde, Infraestrutura, Agricultura, Ciência e Teconologia, Relações Exteriores, dois ou três mais. E só.
A classe política e as corporações profissionais parecem incapazes de entender a gravidade da situação, a necessidade de reformas como a previdenciária, trabalhista, tributária e até mesmo a reforma política. Ninguém quer perder nada, pelo contrário, cada um, ao que parece que é aumentar seus nacos de poder e seus privilégios, e isso, é péssimo para o Brasil.
Sem as reformas estruturantes, sem o fim dos privilégios, sem o rigor no controle das contas públicas e uma fiscalização sem tréguas da corrupção, com a punição exemplar dos malfeitores, não iremos muito longe.
Não sairemos da crise por um passe de mágica. Faz-se necessário a ruptura de diversas barreiras, é exigido o sacrifício de todos. Entretanto, este governo, diferente do antecessor, precisa mostra-se disposto a fazer sua parte, enfrentar de peito aberto tais questões. Por isso mesmo, vejo como tímida a meta de redução de, apenas, quatro mil cargos. Teria que ser muito mais.
Como um paciente, o país sangra por diversos setores, é necessário estancar essa sangria. Seja com a eliminação de órgãos, amputações de outros, seja pela ingestão de medicação forte.
A dúvida que paira é se o governo Temer terá essa capacidade de oferecer tantas soluções duras. Em princípio, com o nível em que chegou a política brasileira, acredito que não. Trata-se de um governo de coalizão formado por pessoas e partidos que ainda não se deram conta do momento em que vivemos. Quando muito, o governo Temer tentará, uma ou outra coisa.
Uma coisa engraçada é que muitos dos que bradam por reformas são os mesmos a protestar contra o amargor das mesmas.
Vejamos o caso do Partido dos Trabalhadores – PT, que até ontem comandava o país deste 2003 e que foi incapaz de fazer os reformas exigidas. Apeado do poder, no mesmo dia, já fazia a oposição mais ferrenha e cobrava resultados, para os quais não deram  nenhuma solução em treze anos de mando.
Em resumo: os grandes, as cúpulas partidárias estão mais preocupadas em “ficarem bem na fita”. Já oposição (ontem, governo) em sabotar as iniciativas do novo governo, antes do homem sentar na cadeira, já estavam batendo panelas. Chega a ser irracional. Não é disso que o Brasil precisa.
Faz tempo que o país ressente-se da ausência de um “timoneiro”, alguém com autoridade moral e ética, para exigir de todos compreensão para os dias difíceis que virão e não que nos tente tapear com soluções mágicas,  que, repito, não existem.
Quando, na crise que desencadeou a II Grande Guerra, a Inglaterra entregou o seu comando a Winston Churchill (1874–1965) ele fez um discursos mais iluminados que, muito depois, virou até nome de filme ou seriado da TV, lá ele dizia: “Neste momento de crise, espero que me seja perdoado não falar hoje mais extensamente à Câmara. Confio em que os meus amigos, colegas e antigos colegas que são afectados pela reconstrução política se mostrem indulgentes para com a falta de cerimonial com que foi necessário actuar. Direi à Câmara o mesmo, que disse aos que entraram para este Governo: «Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor». Temos perante nós uma dura provação. Temos perante nós muitos e longos meses de luta e sofrimento.”
Guardadas as devidas proporções, a situação do Brasil, exige sacrifícios, desprendimento dos cidadãos; exige que cedam em diversos pontos.
Sem isso, quando muito, adiaremos os problemas.
Abdon Marinho é advogado.

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