quarta-feira, 1 de abril de 2015

O QUE MUDOU DESDE O DESABAFO DA PROFESSORA AMANDA GURGEL EM AUDIÊNCIA DA EDUCAÇÃO RN






Quatro anos  depois... o que mudou na educação pública?

No dia 10 de maio de 2011, fui a uma audiência pública na Assembleia Legislativa, que tinha como tema “O cenário da Educação no Rio Grande do Norte”. Assim que cheguei, soube que havia espaço para alguns de nós, após a fala d@s ilustres convidad@s. Então, tratei de garantir a minha fala naquela ocasião em que tod@s @s responsáveis pela educação estavam presentes.

No começo, estava insegura, pois não tinha me preparado e cheguei a pensar em desistir. Mas quando percebi que deputad@s, promotora e secretári@s falavam, falavam, e não diziam nada sobre o tal do cenário da educação, percebi que o mínimo que eu dissesse sobre a nossa realidade estaria mais adequado do que a coletânea de números e frases prontas derramadas ali. Confesso que estava incomodada com todo aquele faz de conta, mas a gota d'água foi a infelicidade da secretária de educação, Betânia Ramalho, ao dizer que não ia falar sobre os problemas da educação porque isso “todo mundo já sabe”. Aquilo passou dos limites. Poxa! Estávamos numa greve com adesão de 90% d@s trabalhadores (as) em educação do estado, e a responsável pelas negociações foi ali dizer que nós não precisávamos falar sobre problemas?! Como pode?!

Mesmo que eu não quisesse, era obrigação falar sobre “o cenário da educação no RN” do ponto de vista de quem vive e constrói a educação, e não do ponto de quem a destrói, para depois maquiá-la com frases de efeito retiradas de compêndios pedagógicos e administrativos. De fato, todo mundo já conhece as muitas faces do caos da educação, inclusive a secretária. Mas não é por isso que vamos deixar de falar da nossa correria de uma escola para outra, dos nossos salários vergonhosos, das dificuldades para lecionar em salas quentes e “populosas”, da falta de material pedagógico, da falta de formação para @s profissionais das escolas...

Não deu outra: falei. Mesmo imaginando que ali ninguém estava interessado em saber da vida real, pois eles vivem mesmo como em contos de fadas. Não disse nada de extraordinário. Apenas a realidade, o “que todo mundo já sabe”. Acontece que o vídeo foi parar na internet, visto mais de 2 milhões de vezes, e acordou algo que estava adormecido. As pessoas se indignaram ao constatar que o cenário da educação aqui era, na verdade, o cenário da educação no Brasil.

A repercussão foi inacreditável. Na época, todo jornalista queria saber o que tinha mudado na minha vida após o vídeo. Não mudou nada. Porém, acho importante fazermos outra pergunta: “após quatro anos, o que mudou na Educação?”. A resposta, eu sei, está na ponta da língua e é a mesma de Norte a Sul: “infelizmente, nada!”. Já aqui, em terras potiguares, algumas coisas mudaram... para pior.

A novidade aqui é que a promotora da educação ficou zangada com o meu atrevimento na época em dizer que professores comem o cuscuz da merenda e fez uma força-tarefa de fiscalização do cuscuz. Até gente de Brasília (pasmem!) veio aqui saber que história era essa. A pressão foi tanta que hoje, em nenhuma (ou quase nenhuma) escola de Natal, @s diretores(as) se arriscam a dar um prato a seus colegas. Isso mesmo! O cuscuz, que antes era alegado, hoje é negado!

Na rede municipal, a novidade é que a prefeita Micarla de Sousa (PV) na época achou que @s professores (as) estavam exigindo muito: formação continuada, piso nacional, aplicação de 1/3 de hora-atividade... E tratou de nos mostrar que tinha gente querendo o nosso emprego. Agora, aqui na capital, basta ser indicado e ter concluído o Ensino Médio para ser contratad@, via empresas terceirizadas, para assumir uma sala de aula do Ensino Fundamental I. E não se incomodar em receber um salário mínimo. Para este caso, a promotoria não organizou força-tarefa.

Como se vê, a educação não passou a ser prioridade, nem aqui no Rio Grande do Norte, nem em nenhum estado. O desrespeito a professores (as) e alun@s é o mesmo. É como se o nosso drama fosse algo invisível. Continua existindo a ideia de que o caos na educação é uma fatalidade, que não pode ser transformado, que é algo normal.

Nosso piso nacional – o mínimo – ainda não é pago em 15 estados! O nosso salário continua uma miséria, e nós temos que pular de escola em escola para multiplicá-lo. Enquanto isso, governantes, vereadores (as) e deputad@s se fingem de ceg@s, surd@s e mud@s. Quando falam, é para nos culpar pela crise, ou para nos pedir paciência e tolerância.

Nesse cenário de abandono, indiferença e até crueldade, é importante lembrar que uma oportunidade está indo embora. O Plano Nacional de Educação (PNE), que ainda está sendo discutido no Congresso Nacional, poderia aumentar os investimentos na área e melhorar as condições para trabalhadores (as) e alun@s. Hoje o investimento em educação se limita a cerca de 5% do que o país produz, do PIB. Precisaríamos de pelo menos 10% do PIB para que a situação começasse a mudar. Mas, infelizmente, o governo não promove nem essa mudança básica. Se pensarmos que 23% do PIB é destinado ao pagamento de juros da dívida pública, podemos ver quais são as prioridades dele.

Por outro lado, posso dizer que uma coisa mudou para melhor depois daquele dia: nossa disposição de luta. O vídeo teve um efeito importante nas escolas, entre professores (as), funcionári@s e mesmo entre @s alun@s. Entre nós, agora repetimos: “Não dá, não posso, não tenho condições!”. E não temos mesmo. Não temos condições de aceitar isso.

No ano de 2012, milhares de professores, em quase todo o país, disseram que não tinham mais condições. Levantaram a cabeça e pararam as aulas, dando uma lição diferente. Foram greves fortíssimas, com entusiasmo. Tenho orgulho de ser parte disso. Fico feliz quando alguém me diz que minha fala no vídeo lhe inspirou a fazer alguma coisa, a lutar...

Isso, sim, mudou. Pode parecer pouco, mas não é. Nunca tive a ilusão de que os governos, por boa vontade, iriam melhorar a situação das escolas, nossos salários, ou nossas condições de vida e trabalho. Sempre soube que não dava para ficar esperando, que a mudança teria que partir da nossa força, da nossa luta e união.

Essa pode parecer uma mudança pequena, mas para mim foi a mais importante. Saber que podemos, sim, pedir a palavra, nos unir aos alun@s, aos pais e mães deles (as) e a tod@s que acreditem que não existe uma sociedade minimamente digna sem educação, para exigir uma mudança fundamental para o futuro das gerações educadas por nós. Enfim, os anos se passaram, e os governos não mudaram de atitude. Mas nós mudamos. E isso faz toda a diferença.

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